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Meu Diário

 

 

 

Por muito tempo, eu vivi sem realmente saber quem eu era.


Não porque me faltasse nome, família, história ou rosto, mas porque me faltava consciência. Eu existia, caminhava, sentia, reagia, buscava, sofria, mas ainda dormindo. Era como habitar uma casa, sem jamais ter acendido a luz em todos os cômodos e visto o que lá havia.

Eu não sabia o quanto era inconsciente. Pq a ignorância desconhece a si mesma.
Não sabia que muitos dos meus pensamentos, escolhas, medos e dores nasciam de camadas profundas que eu nunca havia olhado de verdade. Não sabia que, tantas vezes, eu apenas repetia movimentos antigos, obedecia a programações silenciosas, rodava padrões instalados por gerações, família, vivências, feridas, influências e estruturas que vieram antes de mim. Como um sistema em funcionamento automático, eu seguia. Vivia...respirava, mas não governava.

Também não sabia que era cega.
E talvez essa seja uma das cegueiras mais dolorosas: a de não enxergar a si mesma. A de não perceber as correntes invisíveis que conduzem a alma. A de chamar de escolha aquilo que, muitas vezes, é apenas repetição. A de acreditar que está vendo, quando ainda se está apenas reagindo.

Mas alguma coisa começou a despertar em mim. 
E despertar, eu tenho aprendido, nem sempre é confortável. Às vezes, é justamente abrir os olhos para dentro. É perceber o quanto da própria vida foi vivido sem presença, sem lucidez, sem governo interior. É notar que a alma pode passar anos sendo conduzida por vozes estranhas, crenças herdadas, dores mal elaboradas e desejos que nunca foram verdadeiramente examinados.

Este espaço nasce dessa travessia. 
Nasce do meu processo de sair do automático e entrar, pouco a pouco, no caminho da consciência. Nasce da mulher que começou a ver. Da mulher que começou a discernir o que nela é ruído e o que nela é essência. Da mulher que está aprendendo a deixar de ser governada pelo que a programou, para começar a ser governada por aquilo que, diante de Deus, escolhe para si.

Este diário é também o rascunho do meu livro.
Não apenas de um livro escrito em páginas, mas de um livro escrito na vida, na alma, nas dores atravessadas, nas perguntas honestas, nos desertos, nos realinhamentos, nas quedas e nos recomeços. Cada texto aqui carrega traços desse processo. Cada palavra é, de algum modo, parte de uma reconstrução. Não escrevo a partir de um lugar de perfeição, mas a partir de um lugar de verdade.

E é justamente por isso que a base da minha estrutura é Cristo.
Porque, sem Ele, a consciência pode se transformar apenas em introspecção vazia. Sem Ele, o autoconhecimento pode virar apenas um mergulho sem direção. Em Cristo, porém, eu encontro não só luz para ver, mas fundamento para me reorganizar. Nele, descubro que consciência não é apenas enxergar a si mesma, mas alinhar-se à Verdade. Não é apenas desmontar velhos padrões, mas permitir que uma nova natureza seja formada.

Cristo é o eixo a partir do qual eu tento compreender minha história, minhas sombras, meus afetos, meus conflitos e meus caminhos.
Ele é minha referência de verdade, de identidade e de redenção. É n’Ele que busco estrutura para não me perder de mim mesma. É n’Ele que encontro sentido para essa jornada de sair da inconsciência, romper com a cegueira interior e aprender, pouco a pouco, a governar a mim mesma com lucidez, responsabilidade e fé.

Este diário, portanto, é lugar de travessia.
Lugar de consciência.
Lugar de confronto e de graça.
Lugar onde a mulher que eu fui encontra, aos poucos, a mulher que, em Deus, estou me tornando.

Aqui eu escrevo para não me abandonar.
Escrevo para me ver.
Escrevo para discernir.
Escrevo para lembrar que viver de forma autêntica exige coragem, presença e fundamento.

E, acima de tudo, escrevo porque já não quero mais apenas passar pela vida.
Quero habitá-la com os olhos abertos.

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Minha história

Nasci em Lages, Santa Catarina.
Foi ali que minha história começou...

Meus pais se casaram muito jovens e tiveram quatro filhos. Primeiro veio meu irmão Betinho, que mais tarde partiria, cedo demais, aos 33 anos. Depois vim eu. Em seguida nasceu minha irmã Vanessa e, por último, meu irmão Samuel.

Desde muito pequena, a vida nunca me pareceu simples. Em vez de repouso, eu sentia alerta. Em vez de segurança, eu sentia ameaça. Em vez de paz, eu sentia uma angústia silenciosa que me acompanhava como uma sombra. Era como se meu corpo e minha mente vivessem sem descanso, como se em mim houvesse sempre a expectativa de que algo pudesse se romper, faltar ou doer.

Naquela época, eu não tinha linguagem para isso.
Eu não sabia que vivia em sofrimento.
Eu não sabia que a mente podia adoecer em silêncio.
Eu não sabia que alguém podia crescer sem nunca realmente se sentir segura.

Eu apenas vivia.
Ou talvez sobrevivia.

A insegurança, o medo e a angústia não eram acontecimentos isolados. Eram uma atmosfera. Um chão interno sobre o qual fui aprendendo a andar. E quando uma criança cresce sem paz dentro de si, ela muitas vezes não percebe que lhe falta paz. Ela apenas acredita que viver é isso: manter-se em tensão, tentar se adaptar, suportar o peso invisível de algo que nunca foi devidamente nomeado.

Cresci em Lages e permaneci ali durante grande parte da minha juventude. Minha vida, de certo modo, ficou circunscrita àquela cidade e ao universo que ela representava. Não saí muito dali. Até que, aos 17 anos, deixei tudo para trás ao fugir de casa com meu namorado, o homem que mais tarde se tornaria meu marido por 22 anos.

Hoje, olhando para trás, percebo que essa saída não começou naquele dia. Ela já vinha sendo preparada muito antes, dentro de mim. Porque, às vezes, a alma tenta fugir antes mesmo que o corpo parta. Às vezes, o movimento exterior é apenas o reflexo de um deslocamento interior antigo: a busca por ar, por abrigo, por pertencimento, por algum lugar onde finalmente fosse possível descansar.

Esse foi o começo da minha travessia.
Não apenas a travessia geográfica de quem deixa uma cidade, mas a travessia existencial de quem, sem saber, já carregava dentro de si uma fome de sentido, de segurança e de reencontro.

Minha história não começou apenas nos fatos.
Ela começou nas marcas invisíveis.
No medo sem nome.
Na angústia que me habitava antes mesmo que eu soubesse descrevê-la.
Na tentativa silenciosa de encontrar fora aquilo que eu ainda não possuía dentro.

E talvez seja assim com muitas de nós: a vida vai acontecendo, as escolhas vão sendo feitas, os caminhos vão se abrindo, mas por baixo de tudo existe uma mulher tentando sobreviver às paisagens internas que ninguém vê.

Escrever sobre o começo da minha história é, de certo modo, voltar até essa menina.
É olhar para ela com mais verdade do que ela mesma podia ter.
É reconhecer que, por trás de cada decisão futura, já existia uma alma cansada, inquieta e sedenta de chão.

Foi em Lages que eu nasci.
Mas, por muitos anos, eu ainda não havia nascido para mim mesma.

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