Santidade

Existe uma ideia muito difundida entre nós de que santidade significa viver sem erros, alcançar uma perfeição moral quase impossível ou tornar-se alguém distante da realidade humana. Crescemos ouvindo que ser santo é ser impecável. No entanto, quando voltamos à Palavra de Deus e olhamos para a mentalidade hebraica, descobrimos algo muito mais profundo e transformador.
A santidade, antes de ser um comportamento, é uma separação.
A raiz hebraica Kadosh não fala, em primeiro lugar, de perfeição. Ela fala de pertencimento. Fala de algo que foi retirado do uso comum para existir exclusivamente segundo um propósito de Deus.
Isso muda tudo.
Existe um Deus que santifica.
Existe um Deus que separa.
Existe um Deus que redefine destinos.
Durante muito tempo pensei na santificação apenas como abandonar o pecado. Mas antes de tirar alguém do pecado, Deus deseja tirá-lo do comum.
O oposto de santo, no hebraico, não é pecador.
É comum.
E talvez aí esteja um dos maiores desafios da vida cristã.
Muitos de nós já fomos lavados pelo sangue do Cordeiro, mas continuamos vivendo como pessoas comuns. Organizamos nossa vida apenas em torno das urgências, dos interesses, dos projetos pessoais e das preocupações diárias. Deus nos chama para algo maior.
Ele nos chama para pertencermos exclusivamente a Ele.
Essa verdade aparece repetidamente nas Escrituras.
As taças do templo eram apenas utensílios. Mas porque haviam sido separadas para Deus, não podiam ser usadas em qualquer banquete. Quando Belsazar resolveu utilizá-las para exaltar seus próprios deuses, não estava apenas usando objetos religiosos. Estava profanando aquilo que Deus havia separado.
Naquela mesma noite, seu destino foi determinado.
Da mesma forma, Nabote não enxergava sua vinha como um simples patrimônio. Aquela terra representava a herança da aliança. Era um testemunho da fidelidade de Deus à sua família. Acabe queria transformá-la em negócio. Nabote via um legado sagrado.
A diferença entre ambos não era econômica.
Era espiritual.
Enquanto um enxergava mercadoria, o outro enxergava propósito.
Talvez Deus esteja nos perguntando exatamente isso hoje.
O que temos tratado como comum que, na verdade, pertence a Ele?
Nosso tempo.
Nossa casa.
Nosso casamento.
Nossos dons.
Nossa profissão.
Nossa história.
Nossa própria vida.
Quando Deus santifica alguém, Ele não apenas muda seus comportamentos. Ele muda a maneira como essa pessoa passa a enxergar tudo.
Ela deixa de viver como dona da própria existência para tornar-se administradora daquilo que pertence ao Senhor.
É por isso que Josué declara:"Santificai-vos, porque amanhã o Senhor fará maravilhas."
Primeiro vem a separação.
Depois vem o destino.
Sempre foi assim.
Abraão foi separado antes de receber a promessa.
Israel saiu do Egito antes de entrar em Canaã.
Os levitas foram separados antes de receber sua herança.
Daniel recusou negociar sua identidade antes de ser elevado pelo próprio Deus.
A santificação nunca foi perda.
Ela sempre foi preparação.
Deus nos convida a interromper nossa produção para reconhecer que Ele continua sendo o Criador. Quando fazemos isso, voltamos voluntariamente às mãos do Oleiro.
Voltamos a ser barro.
E o barro não discute o formato que receberá.
Permite apenas que o Oleiro trabalhe.
Talvez seja exatamente isso que Deus deseja fazer conosco, retirar-nos do comum, desfazer identidades construídas pela pressa, pelo medo e pelas circunstâncias, para moldar novamente quem realmente fomos criados para ser.
Santificar é dizer ao Senhor: "Minha vida não me pertence. Meu tempo não me pertence. Meu destino não me pertence."
E é justamente nesse lugar de entrega que conhecemos uma das revelações mais belas das Escrituras.
O Deus que santifica.
O Deus que pega pessoas comuns e lhes dá um propósito eterno.
O Deus que transforma barro em vasos de honra.
Porque toda verdadeira santificação não termina em separação.
Ela termina em destino.
Oração
Senhor, separa-me para o Teu propósito
Pai,
Hoje me coloco diante de Ti reconhecendo que, durante muito tempo, compreendi a santidade de maneira tão pequena. Muitas vezes pensei que santificar era apenas evitar o pecado, quando, na verdade, Tu desejavas fazer algo muito mais profundo: retirar-me do comum para me conduzir ao Teu propósito eterno.
Ensina-me a compreender o que significa ser santo segundo o Teu coração.
Não apenas moralmente correto, mas inteiramente separada para Ti.
Que eu nunca transforme em comum aquilo que Tu chamaste de santo.
Livra-me de tratar como ordinário o tempo que Te pertence, os dons que me confiaste, a história que escreves sobre minha vida, a vocação que preparaste para mim e a herança espiritual que colocaste em minhas mãos.
Perdoa-me pelas vezes em que negociei aquilo que era sagrado.
Pelas vezes em que valorizei mais os interesses deste mundo do que a fidelidade à Tua aliança.
Pelas vezes em que procurei prosperidade antes da separação, herança antes da transformação e destino antes da rendição.
Hoje compreendo que Tu primeiro separas.
Depois transformas.
Depois revelas o propósito.
Toda vez que eu me apresentar diante de Ti, desfaz em mim aquilo que não nasceu do Teu coração.
Quebra as identidades que construí por medo, por rejeição, por orgulho ou pela necessidade de provar meu valor.
Leva-me novamente ao lugar do barro.
Que eu nunca resista às Tuas mãos.
Molda-me outra vez.
Refaz-me quantas vezes forem necessárias, até que minha vida revele exatamente o vaso que Tu sonhaste desde antes da fundação do mundo.
Assim como Daniel, que eu jamais esteja à venda.
Que nenhum reconhecimento, posição, riqueza ou honra deste século tenha poder para negociar minha fidelidade.
Assim como Nabote, dá-me discernimento para reconhecer a herança que recebi de Ti e coragem para jamais transformá-la em mercadoria.
Que tudo aquilo que me entregaste permaneça consagrado ao Teu propósito.
Que eu Te conheça mais profundamente como o Deus que santifica.
O Deus que redefine identidades.
O Deus que cura o coração.
O Deus que transforma barro em vaso de honra.
O Deus que tira pessoas do comum para fazê-las participantes dos Teus propósitos eternos.
Retira-me do ordinário.
Livra-me de viver apenas para sobreviver.
Livra-me de desperdiçar a vida com aquilo que não permanecerá na eternidade.
Que minha existência inteira seja uma resposta ao Teu chamado.
Que meu tempo seja Teu.
Que meus pensamentos sejam Teus.
Que meus dons sejam Teus.
Que minhas palavras sejam Tuas.
Que meu destino seja completamente Teu.
E que, ao final da minha caminhada, minha vida revele apenas uma verdade:
Eu pertenço ao Senhor.
Em nome de Jesus.
Amém.




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