top of page
Buscar

Eu cantei o meu processo

18 de jun.
7 min de leitura

Atualizado: 18 de jun.


Descobri isso ontem.

Houve um tempo em que eu cantava no ponto de pregação que funcionava em nossa casa.

Minha voz nunca foi de cantora. Tecnicamente, não era uma voz muito adequada para o canto. Eu mesma costumava compará-la a uma “taquara rachada”.

Quando era pequena, sofri bullying na escola. Um colega disse que eu tinha voz de taquara rachada. Eu nem sabia exatamente o que aquilo significava, mas entendi que minha voz cantando era desagradável. Curiosamente, minha voz falada sempre foi elogiada.

Mesmo assim, eu cantava.

Cantava acompanhada por um playback, com plena consciência das minhas limitações. Durante anos, nós três estivemos envolvidos em fazer aquele ponto de pregação funcionar. Acreditávamos que estávamos servindo a Deus ali.

O único hino que eu costumava apresentar era “Sonda-me”, interpretado por Aline Barros.

Talvez outras pessoas cantassem melhor do que eu, mas eu me colocava diante delas e fazia daquela música uma oração.

Eu pensava que cantava para Deus, mas hoje percebo que também cantava para dentro de mim, anunciando algo que ainda não compreendia.

Eu pedia que Deus me sondasse.

Que me conhecesse.

Que me quebrantasse.

Que me transformasse.

Que me enchesse.

Que me usasse.

Naquela época, eu cantava essas palavras sem compreender inteiramente o que estava pedindo.

Não sabia que uma oração poderia atravessar anos, desdobrar-se em uma história inteira e somente depois revelar o seu verdadeiro significado.

Não sabia que, quando pedimos a Deus que nos sonde, estamos permitindo que Sua luz entre em lugares que passamos a vida inteira evitando.

Não sabia que ser profundamente conhecida por Deus também significaria ser confrontada por Ele.

Eu não imaginava que, quando Ele me sondasse, encontraria tantas impurezas escondidas sob minha força, minha inteligência, minha religião e a imagem que eu havia construído a respeito de mim mesma.

Impurezas que precisariam ser expostas ao fogo, o mesmo fogo que ilumina, purifica e também queima.

Eu queria ser transformada, mas ainda não sabia quanto daquilo que chamava de identidade era, na verdade, defesa.

E as defesas precisariam ser quebradas.

Eu queria ser cheia, mas não compreendia que muitos espaços dentro de mim já estavam ocupados pelo ego, pelo orgulho, pela inveja, pelo medo, pelo controle, pela dor, pela ira, pelo trauma, pela autossuficiência, pelo sentimento de falta e pela necessidade de ser reconhecida e validada.

Eu queria ser usada, mas ainda acreditava que ser usada por Deus dependia principalmente das minhas capacidades e dos meus talentos.

Ainda não compreendia que o ego não pode ocupar o centro daquilo que deseja servir a Deus.

Eu cantava ao Oleiro, pedindo que trabalhasse o vaso.

Pedia transformação.

Pedia quebrantamento.

Mas não sabia quanto daquele vaso precisaria ser desfeito, amassado e refeito.

A oração que atravessou os anos

Ontem, durante um círculo de oração, uma jovem pegou o microfone e começou a cantar aquele mesmo hino.

Eu não o ouvia havia cerca de quinze anos.

O único hino que eu cantava.

Enquanto ela cantava, cada palavra ganhou vida dentro de mim.

Já não era apenas uma música.

Era a narrativa da minha história.

Era como se Deus estivesse me mostrando que havia ouvido uma oração que nem eu mesma sabia que estava fazendo.

O Senhor havia me sondado.

Havia me conhecido para além da aparência.

Havia revelado minha arrogância, minha desobediência, minha ira, minha autossuficiência e as idolatrias que se escondiam sob necessidades legítimas de amor, família, segurança e pertencimento.

Ele havia me quebrantado.

Não para me anular, mas para romper a rigidez e as idolatrias que me impediam de confiar.

Não para destruir minha personalidade, mas para desfazer a falsa segurança construída ao redor da minha própria força e sustentada pelo ego.

Não para me deixar sem identidade, mas para separar quem realmente sou Nele daquilo que precisei me tornar para sobreviver.

Enquanto a jovem cantava, chorei profundamente.

Tudo se uniu dentro de mim:

O ponto de pregação.

O playback.

Minha voz limitada.

Minha família.

A mulher que eu era.

A oração que fiz.

O fogo que atravessei.

A mulher que Deus ainda está formando.

Então percebi:

Eu havia cantado o meu próprio processo antes de vivê-lo.

O vaso não conhecia as mãos do Oleiro

Quando pedi transformação, talvez imaginasse uma mudança suave, alguns ajustes e adornos acrescentados à pessoa que eu já era.

Mas Deus não estava apenas acrescentando algo à minha antiga estrutura.

Ele estava tratando a própria estrutura.

Eu havia aprendido a viver como se tudo dependesse de mim.

Minha força não era apenas uma qualidade. Havia se tornado meu esconderijo.

O fazer era meu refúgio.

O controle era minha segurança.

A inteligência era minha defesa.

A capacidade de suportar tudo era a prova de que eu não precisava depender de ninguém.

Eu dizia crer em Deus, mas, em muitas áreas da minha vida, vivia como se não houvesse uma mão além da minha.

No fundo, eu não acreditava verdadeiramente em um Pai presente, disponível e disposto a me ajudar, me amar e cuidar de mim...

Minha percepção de Deus estava contaminada pela experiência de uma menina que precisou aprender a se virar sozinha.

Uma menina que concluiu que não havia alguém suficientemente presente para protegê-la.

Assim, em vez de confiar na mão de Deus, passei a confiar na minha própria mão.

Parecia mais garantido.

Eu fazia.

Eu resolvia.

Eu carregava.

Eu tentava mudar as pessoas.

Eu tentava sustentar a casa.

Eu tentava produzir os resultados.

Até que surgiu uma pergunta:

Eu sempre estive confiando na minha própria mão?

Talvez uma de minhas idolatrias fosse justamente a idolatria de mim mesma.

Não como uma admiração consciente por mim, mas como a crença de que tudo dependia de mim.

A mulher que faz pode transformar sua capacidade de fazer em um deus.

O trabalho pode se tornar deus.

O cuidado pode se tornar deus.

O controle pode se tornar deus.

A inteligência pode se tornar deus.

A força pode se tornar deus.

A capacidade de suportar tudo sozinha pode se tornar deus.

Uma dimensão pobre e limitada

Também compreendi que, se Deus não existe na dimensão das minhas crenças mais profundas e eu mesma ocupo o lugar Dele, tudo se torna muito pobre e limitado.

O que consigo construir sozinha?

O que construí apenas com minhas próprias mãos?

Não criei a vida.

Não tenho poder para ressuscitar aquilo que morreu.

Quando Deus não está verdadeiramente presente em minha dimensão interior, o pouco que possuo se transforma em tudo.

Por isso, quando perco esse pouco, sinto que perdi o mundo inteiro.

Se meu marido vai embora, perco tudo.

Se meu filho me rejeita, perco tudo.

Se não tenho acesso aos meus netos, perco tudo.

Isso acontece porque fiz dessas relações o tamanho inteiro da minha existência.

Mas elas não são tudo.

Deus é maior.

Preciso recuperar, em Cristo, a dimensão adequada de todas as coisas.

Pare de adorar a dor

Outra compreensão veio através da história de Raquel.

Ao dar à luz em meio ao sofrimento, ela chamou seu filho de Benoni, “filho da minha dor”. Mas Jacó não permitiu que a dor determinasse para sempre a identidade daquela criança. Ele o chamou de Benjamin.

Então compreendi:

Não é a minha dor que dará o nome definitivo àquilo que nasceu da minha história.

Deus possui outra dimensão.

Minha vida não precisa receber o nome do meu sofrimento.

Minha identidade não precisa ser “a mulher abandonada”, “a mãe rejeitada”, “a esposa traída” ou “a avó impedida de conviver com os netos”.

Essas coisas aconteceram, mas não possuem autoridade para determinar o nome final da minha existência.

Foi como se Deus me dissesse:

“Pare de adorar a dor.”

Eu não preciso negar o sofrimento, mas também não devo construir um altar para ele.

A dor é instrumento. Não é Deus.

Ela pode ensinar, confrontar, revelar, quebrar resistências e produzir obediência.

Jesus aprendeu obediência por meio daquilo que sofreu.

E eu também estou aprendendo.

O que senti como esmagamento talvez tenha sido o colapso da mulher que precisava ser o próprio deus para sobreviver.

Deus não estava esmagando meu valor.

Estava esmagando a mentira de que eu poderia salvar a mim mesma.

Não estava destruindo a filha.

Estava desfazendo a órfã autossuficiente que acreditava que jamais poderia descansar.

O Oleiro não tocou o vaso porque o odiava, mas porque conhecia o que ainda precisava ser refeito para permanecer diante do propósito.

Antes de encher, foi preciso esvaziar

Eu pedia para ser cheia, mas não sabia que o enchimento exigiria espaço.

Como Deus preencheria aquilo que já estava ocupado pela necessidade de controlar?

Como me ensinaria a confiar enquanto eu continuasse adorando minha própria capacidade de fazer?

Como me usaria como farol enquanto eu ainda precisasse que a luz servisse para provar o meu valor?

A purificação não foi um castigo por existirem impurezas em mim.

Foi a resposta à oração de alguém que pediu para ser verdadeira diante de Deus.

O fogo revelou o que estava escondido.

As perdas revelaram onde eu havia colocado minha identidade.

A impotência revelou quanto eu acreditava no meu próprio poder.

A rejeição revelou minha fome de aprovação.

O silêncio revelou minha dificuldade de descansar.

A dor não criou tudo isso.

Apenas trouxe à superfície o que precisava ser visto.

O farol não produz a luz

Eu pedia para ser farol.

Mas o farol não produz a luz que carrega.

Ele apenas permanece disponível para que uma luz maior atravesse sua estrutura e alcance quem está procurando direção.

Ser farol não é ser a origem.

Não é ser a salvadora.

Não é possuir todas as respostas.

É permitir que aquilo que Deus iluminou em nós se torne referência para alguém que ainda atravessa a escuridão.

Talvez Deus tenha respondido à minha oração.

Não da maneira romantizada que imaginei, mas através de um caminho real, profundo e doloroso.

Pedi para ser cheia.

Ele revelou o que precisava ser esvaziado.

Pedi transformação.

Ele tocou estruturas que eu chamava de identidade.

Pedi quebrantamento.

Ele permitiu que minha autossuficiência chegasse ao limite.

Pedi para ser farol.

Ele me conduziu por noites nas quais precisei descobrir que a luz não vinha de mim.

A canção tornou-se vida

Hoje, quando me lembro daquele hino, não penso apenas no que cantei.

Penso no que Deus fez com minha oração.

Eu não sabia o que estava pedindo.

Não sabia quanto tempo levaria.

Não sabia por quais caminhos seria conduzida.

Não sabia que a resposta incluiria perdas, abandonos, traições, desonras, injustiças, confrontos, arrependimento, fogo e reconstrução.

Mas hoje reconheço:

O Senhor me sondou.

O Senhor me conheceu.

O Senhor revelou o que havia em mim.

E eu vi.

Ele começou a quebrantar o que estava endurecido.

E continua me transformando.

Ainda sou um vaso em Suas mãos.

Ainda existem partes a serem curadas, purificadas e reorganizadas.

Mas agora sei que minha voz limitada nunca foi o centro daquela canção.

O centro era a oração.

Eu achava que estava apenas cantando um hino.

Mas estava entregando a Deus o direito de escrever um processo em minha vida.

Eu cantei aquilo que viveria.

E, muitos anos depois, enquanto outra pessoa cantava, compreendi que Deus havia escutado cada palavra.

E, claro, se você leu até aqui, provavelmente agora ouvirá “Sonda-me”, de Aline Barros.

Mas pense bem antes de transformar a letra em oração… talvez Deus responda.

 
 
 

Posts recentes

Ver tudo

Comentários


bottom of page