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O Profeta

Há chamados que ninguém escolheria se soubesse, desde o início, o preço que carregam.

Há ministérios que parecem bonitos quando vistos de longe, mas que, por dentro, são feitos de fogo, silêncio, renúncia, lágrimas e uma intimidade tão profunda com Deus que, às vezes, é a única coisa que compensa a solidão que eles produzem. Pq vc nem mesmo pode comunicar a alguém, tudo que acontece com vc...

Durante muito tempo, eu tentei fugir de certas palavras. Não pq eu não as reconhecesse como verdadeiras, mas justamente pq eu sabia que elas tinham peso. Eu sabia que algumas verdades, quando ditas, não são recebidas imediatamente como luz. Primeiro, elas ferem a aparência e o ego, depois, incomodam as defesas. Mais tarde, talvez muito mais tarde, começam a produzir consciência.

E esse é um dos lugares mais solitários da alma: quando Deus nos direciona a dizer algo que, humanamente, gostaríamos de calar, ou só não ter nada a ver com aquilo.

Pq não queremos cultivar a dor. Não temos prazer em confrontar. Não queremos que a verdade nos torne superiores. Mas porque existe uma obediência que pesa mais do que a necessidade de ser aceita. E enquanto vc não obedece, vc fica fora do seu lugar...

Um dia, meu filho me perguntou algo que ficou ecoando dentro de mim:

“Será que você não pode ser agradável?”

Essa pergunta me atravessou.

Logo lembrei da educação dele e do quanto precisamos ser desagradáveis ao educar e ensinar, desagradáveis aos olhos de quem precisa obedecer e aprender...

Mas era mais que isso, mais do que só educar, pra mim é tbm cumprir com um ministério que Deus me deu..

De certo modo, tocou uma ferida antiga: a ferida de ser vista como difícil quando, por dentro, eu só estava tentando ser fiel ao que compreendia como verdade. A ferida de falar algo que, no primeiro momento, gera rejeição, afastamento, silêncio ou raiva; mas que, depois de algum tempo, a própria pessoa reconhece que precisava ouvir. As vezes demora anos...

E então eu me perguntei: o que significa ser agradável quando Deus me chama para ser verdadeira?

Essa pergunta não é simples.

Porque existe uma verdade que pode ser usada como arma.

Existe uma fala dura que pode nascer mais da ferida do que do Espírito.

Existe uma sinceridade que, na verdade, é falta de amor. E eu precisei aprender que o ministério profético não me autoriza a ferir pessoas em nome de Deus.

Mas também existe o outro lado: existe uma falsa paz construída sobre silêncio, omissão e conveniência.

Existe uma espiritualidade que chama de amor aquilo que, na verdade, é medo de confrontar e covardia.

Existe uma cultura familiar, religiosa e emocional que prefere pessoas “agradáveis” a pessoas verdadeiras.

E o profeta, quando é verdadeiro, vive nesse lugar estreito: não pode falar pela carne, mas também não pode se calar por medo.

O ministério profético como altar

Quando olho para os profetas da Bíblia, percebo que nenhum deles carregou a Palavra de Deus sem antes ser colocado num altar.

Abraão precisou deixar a terra, a parentela e a segurança. Moisés precisou enfrentar Faraó e depois suportar um povo difícil no deserto. Miriã precisou ser tratada em seu orgulho e comparação. Débora precisou levantar coragem em um tempo de fraqueza. Samuel precisou ouvir Deus ainda menino e depois sofrer com a corrupção espiritual de sua geração. Natã precisou confrontar Davi. Elias precisou enfrentar o fogo público e depois a caverna secreta. Eliseu carregou o manto de outro profeta. Micaías preferiu a prisão a agradar o rei. Isaías viu a santidade de Deus e reconheceu a própria impureza. Jeremias chorou por um povo que não queria ouvi-lo. Ezequiel perdeu o “desejo dos seus olhos”. Daniel permaneceu fiel dentro de um império. Oseias transformou sua vida afetiva numa parábola do amor traído de Deus. Amós denunciou uma religião bonita por fora, mas injusta por dentro. Jonas fugiu da misericórdia que ele mesmo deveria anunciar. Habacuque levou sua dúvida para Deus. Malaquias confrontou uma geração que oferecia culto sem honra. João Batista perdeu a cabeça por falar a verdade.

Quando olho para essa galeria de profetas, eu entendo algo: o profeta não é apenas alguém que fala; é alguém que se torna mensagem.

A vida dele vira linguagem. A dor dele vira sinal. A solidão dele vira deserto. A renúncia dele vira altar. A obediência dele vira testemunho.

E talvez seja por isso que eu tenha resistido tanto.

Porque, no fundo, eu sabia que carregar uma palavra de Deus significaria ser incompreendida até mesmo pelos meus. Significaria perder a possibilidade de ser apenas agradável. Significaria, muitas vezes, ser lida como exagerada, dura, intensa, incômoda ou difícil.

Mas sou grata a Deus, por ele me ensinar...


 
 
 

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