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Quando eu deixo de me ver como um erro em progresso

Eu não sou um erro em progresso...


Grande parte da nossa vida é vivida como se estivéssemos tentando consertar algo em nós. Como se ainda não tivéssemos chegado. Como se o nosso valor dependesse da próxima conquista, da próxima melhora, da próxima versão mais madura, mais produtiva, mais espiritual, mais bonita, mais resolvida, mais saudável.

Vivemos sob uma mentalidade que nos diz o tempo todo: você ainda não é suficiente.

E talvez seja justamente essa uma das maiores prisões da alma.

O sexto portal me levou a olhar para o Shabat/descanso como uma experiência de restauração da consciência original. Não apenas como descanso, pausa ou consolo, mas como um retorno ao modo como Deus olhou para a criação antes de qualquer distorção.

Em Gênesis, depois de criar o ser humano, Deus olha para tudo e diz: “muito bom”.

Não apenas bom. Muito bom.

Essa palavra confronta...

Porque é muito mais fácil acreditar que Deus me ama apesar de mim do que acreditar que Ele olhou para mim, em minha origem, e viu algo muito bom.

A queda distorceu essa percepção.

Depois do erro, Adão se esconde. E talvez ali nasça uma das feridas mais profundas da humanidade: a incapacidade de separar “eu errei” de “eu sou um erro”.

Quantas vezes fazemos isso?

Erramos e nos escondemos. Falhamos e nos diminuímos. Não conseguimos algo e concluímos que não somos suficientes. Descansamos e sentimos culpa. Paramos e achamos que estamos ficando para trás.

Essa é a consciência do escravo.

O escravo precisa produzir para existir. Precisa conquistar para ter valor. Precisa provar todos os dias que merece permanecer. Precisa correr, porque se parar, teme perder o lugar.

Mas o filho não vive assim.

O filho não trabalha para ser amado. Ele age porque é amado.

Essa diferença muda tudo.

O Shabat, para mim, começa a se revelar como uma câmara de reprogramação espiritual. Durante a semana, o mundo imprime em nós seus códigos: desempenho, comparação, pressa, cobrança, resultado, conquista. Mas no Shabat, Deus nos chama de volta ao código original.

Você existe antes de produzir. Você pertence antes de acertar. Você é amado antes de entregar resultados. Você é obra de Deus antes de ser obra de si mesmo.

Essa consciência não entra em nós de uma vez. Ela precisa ser regada, como uma semente. Precisa ser repetida, até descer da mente para o coração.

Eu não sou um erro sendo corrigido. Eu não sou apenas um projeto em melhoria. Eu sou uma obra criada por Deus com satisfação.

Isso não significa negar processos, amadurecimento ou transformação. Significa apenas que a transformação verdadeira não nasce do ódio por quem sou, mas da comunhão com Aquele que me criou.

A mentalidade escrava quer me melhorar pela culpa. Deus me amadurece pela presença.

O Salmo 92, chamado de cântico para o dia do Shabat, expressa essa consciência restaurada. Ele fala de gratidão, contemplação, florescimento, estabilidade e confiança. Diz que o justo florescerá como a palmeira e crescerá como o cedro do Líbano.

Essa imagem é linda.

A palmeira não floresce porque está competindo. O cedro não cresce porque está tentando provar valor. Eles florescem porque estão plantados.

Talvez esse seja um dos grandes segredos da vida espiritual: não florescemos porque corremos mais. Florescemos porque estamos enraizados no lugar certo.

O Shabat me ensina a parar de ser o centro da minha própria narrativa.

Durante a semana, muitas vezes me alegro com os meus feitos. Com aquilo que consegui resolver, produzir, entregar ou superar. Mas o descanso verdadeiro me desloca desse lugar. Ele me ensina a contemplar os feitos de Deus.

E quando eu deixo de ser o centro da história, finalmente começo a descansar.

Porque é cansativo demais sustentar uma vida onde tudo depende de mim.

A consciência original é a consciência de filha.

Na mentalidade de escrava, eu preciso conquistar. Na mentalidade de filha, eu recebo.

Na mentalidade de escrava, eu tenho medo de perder. Na mentalidade de filha, eu aprendo a administrar o que o Pai me confiou.

Na mentalidade de escrava, o futuro é ameaça. Na mentalidade de filha, o futuro é herança.

Isso muda inclusive a forma como entendo governo espiritual. Governar não é dominar por força, conquistar por ansiedade ou provar capacidade. Governar é exercer mordomia. É cuidar daquilo que não nasceu de mim, mas foi confiado a mim.

Adão não precisava conquistar o jardim. Ele precisava guardá-lo e cultivá-lo.

Talvez nós também estejamos tentando conquistar aquilo que Deus já nos deu como herança.

E talvez o Shabat venha exatamente para nos devolver ao lugar onde paramos de disputar a vida e começamos a habitá-la.

A grande cura deste portal é perceber que o descanso não é perda de tempo. O descanso é o lugar onde a identidade amadurece.

O escravo não pode descansar porque acha que, se parar, deixa de existir. O filho pode descansar porque sabe que pertence.

E talvez essa seja uma das maiores libertações que Deus deseja fazer em nós: remover o chip da conquista como fundamento da identidade.

Eu não sou aquilo que conquisto. Eu não sou aquilo que produzo. Eu não sou aquilo que consigo provar.

Eu sou filha. Sou criação. Sou jardim. Sou obra Dele.

E Deus olhou para aquilo que criou e disse: muito bom.

Talvez a restauração da consciência original comece exatamente aqui: quando eu paro de me esconder de Deus por me sentir insuficiente e permaneço diante Dele até que a bênção caia sobre mim como orvalho.

Até que a culpa perca força. Até que a alma pare de correr. Até que a identidade de escrava comece a ceder lugar à identidade de filha.

E então, pouco a pouco, eu floresço...


 
 
 

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