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Quando eu descobri que não queria justiça

Há orações que nascem da alma ferida. E há revelações que vêm para separar, dentro de nós, o clamor santo do grito do ego.


Durante muitos anos, eu dizia e acreditava que queria justiça.

Orava, chorava, clamava a Deus. Dentro de mim, havia um grito antigo, profundo, dolorido. Um clamor que nascia da sensação de ter sido ferida, traída, abandonada, injustiçada, desonrada, atravessada por experiências que deixaram marcas muito profundas na minha alma. Eu chamava aquilo de sede de justiça. Mas, nesta semana, algo dentro de mim foi rasgado por uma compreensão que não veio da minha mente, mas do Espírito.

Entendi que, por muito tempo, o que eu chamava de justiça não era justiça.

Era juízo.

Era condenação.

Era, no fundo, o desejo de ver o outro sofrer na mesma medida em que me fez sofrer. Era, a vontade de ver a dor voltar para quem a provocou. Era a esperança silenciosa de que alguém pagasse, de que alguém sentisse na pele, no coração, na alma, aquilo que deixou em mim. Era o clamor de um ego ferido que se vestia de espiritualidade para não precisar admitir sua sede de compensação.

Era a vontade de que o outro experimentasse a dor, a perda, a humilhação, a rejeição. Era o clamor de um ego que, sem perceber, queria retribuição. Queria compensação. Queria que alguém pagasse pelo que fez.

Mas numa conversa com um pastor, o pastor Ricardo Gervásio, a fala dele entrou em mim como espada. Uma palavra que não apenas me confrontou, mas me colocou diante do temor de Deus. Ele disse, em essência, que quando o homem clama por justiça, geralmente o que ele deseja, na verdade, é juízo, é condenação. Mas a justiça de Deus é outra coisa. A justiça de Deus não nasce do desejo de punir; nasce do coração de um Pai que deseja restaurar. Porque as bases do trono de Deus são justiça e juízo, mas a justiça divina sempre está alinhada com a verdade, com a redenção e com a restauração da identidade.

Essa compreensão esmagou o meu ego ferido e injustiçado.

Porque, se eu sou honesta, preciso admitir: muitas vezes eu não queria que Deus restaurasse quem me feriu. Eu queria que Deus me vingasse. Eu queria que Ele mostrasse quem estava certo. Eu queria que Ele expusesse, ferisse, cobrasse, punisse. Mas naquele momento eu entendi algo tremendo: a justiça de Deus não é a projeção da minha dor. A justiça de Deus não serve ao meu ressentimento. A justiça de Deus não é uma ferramenta para satisfazer o desejo humano de condenação.

A justiça de Deus visa restaurar o ser humano à sua verdadeira identidade.

Enquanto nós queremos, muitas vezes, que a pessoa caia, Deus quer alcançá-la como filho ou filha. Enquanto nosso coração ferido deseja retribuição, o coração do Pai deseja arrependimento genuíno. Enquanto a carne quer resposta imediata, o Espírito quer transformação profunda. E só o Espírito pode convencer alguém do pecado, da verdade e do estado em que se encontra. Não é o nosso sofrimento que convencerá as pessoas. Não é a nossa dor, por mais legítima que seja. Não é a nossa insistência, nem o nosso desespero. É o Espírito de Deus quem toca as bases da identidade, destrava a mente, rompe cegueiras e produz arrependimento verdadeiro.

A minha luta não é contra pessoas. Não é contra rostos, nomes e histórias humanas apenas. Existe uma dimensão espiritual em tudo isso. E, se eu quiser me posicionar corretamente, não posso permanecer no lugar da juíza ferida que exige condenação. Preciso me levantar no lugar da intercessora que discerne o reino. Preciso sair do desejo de vingança e entrar na posição espiritual da justiça divina. Preciso construir um altar, e não um tribunal.

Isso é muito mais difícil do que parece.

Porque o ego ferido gosta de ter razão. A alma ferida gosta de se apegar à narrativa do dano. A dor gosta de repetir: “eu fui lesada, eu fui excluída, eu fui humilhada, eu fui abandonada”. E, em muitos casos, isso é verdade. A ferida é real. O dano existiu. O sofrimento não é imaginário. Mas a cura começa quando paramos de transformar nossa dor em licença para desejar condenação.

Nesse dia, subi ao monte para orar.

E lá, aos pés daquela escada, naquele monte, o tempo, de repente, se dobrou diante de mim, uma memória me alcançou com força. Eu lembrei que também havia subido ali quinze anos atrás, quando tudo aconteceu. Naquele dia eu me sentia como alguém que perdeu tudo…

Naquele instante, senti como se duas versões de mim se encontrassem no mesmo lugar:  a mulher de hoje e a mulher de quinze anos atrás. Entre uma e outra, existe um abismo de acontecimentos, perdas, lágrimas, processos, desertos, quedas, silêncios e confrontos. Milhares de coisas aconteceram nesses quinze anos. E hoje consigo perceber que, de algum modo, todas elas foram necessárias para que eu aprendesse tudo que Deus queria me ensinar.

Necessárias não porque a dor fosse boa.

Necessárias porque Deus soube usar até aquilo que me atravessou para me mostrar o que havia em mim, o que ainda precisava ser curado, o quanto do meu clamor era espiritual e o quanto ainda era egoico, infantil e ferido.

De certa forma, muitas coisas se repetiram agora. Como se as mesmas pessoas me ferissem novamente, no mesmo lugar, da mesma forma, com alguma variação de circunstâncias, sentimentos semelhantes. Tive de enfrentar de novo emoções antigas, memórias velhas, dores que pareciam enterradas, mas que ainda guardavam vida dentro de mim. E, dessa vez, algo mudou: eu já não sou a mesma mulher.

Naquela época, eu não tinha o entendimento que tenho hoje.

Aquela Valéria de quinze anos atrás não tinha como reagir de outro jeito. Ela reagia a partir das dores que carregava, das feridas abertas, dos traumas não elaborados, da carência, do abandono, do ego ferido. Ela reagia com os recursos emocionais e espirituais que possuía. E isso é algo que hoje eu consigo olhar com mais misericórdia. Não com complacência, mas com compaixão.

Eu era uma religiosa de carteirinha. Estava dentro da igreja, conhecia a linguagem da fé, participava da estrutura religiosa. Mas conhecer a religião não significa necessariamente ter sido transformada nas profundezas da alma. É possível ser religiosa e continuar governada por feridas. É possível defender doutrinas e ainda viver a partir do ressentimento. É possível falar de Deus e continuar presa ao próprio ego.

Hoje eu vejo isso com mais clareza.

E talvez essa seja uma das dores mais humilhantes e, ao mesmo tempo, mais libertadoras do processo: perceber que nem tudo em mim era zelo pela justiça; muito era sede de compensação. Nem toda oração era rendição; muitas eram tentativas de convencer Deus a tomar partido do meu sofrimento como eu queria. Nem todo clamor era puro; muito dele ainda nascia da parte em mim que queria ser validada pela condenação do outro.

Mas Deus, em sua misericórdia, não respondeu à minha carne.

Ele respondeu ao meu destino e propósito.

Ele não alimentou meu desejo de vingança. Ele não fortaleceu a minha narrativa de vítima para sempre. Ele não me entregou a satisfação amarga de ver o outro cair apenas para que meu ego se sentisse compensado. Em vez disso, Ele me conduziu por um caminho mais doloroso, porém mais santo: o caminho em que eu mesma precisava ser transformada.

E talvez essa seja uma das formas mais altas da justiça divina. Pq Ele estava me dando algo precioso.

Porque a justiça de Deus não apenas lida com o mal que nos fizeram. Ela também lida com o mal que a dor produziu dentro de nós. Ela não trata somente o que aconteceu fora; ela toca o que foi deformado dentro. Ela expõe nossas intenções, revela nossas motivações ocultas, quebra nossos altares falsos e nos chama de volta para a verdade.

Hoje eu sei: clamar por justiça, no sentido de Deus, é clamar para que a verdade prevaleça, para que a identidade seja restaurada, para que o pecado seja confrontado pelo Espírito, para que haja arrependimento genuíno, para que as trevas percam força, para que o reino de Deus avance. Não é pedir que alguém sinta exatamente a minha dor. Não é desejar destruição. Não é confundir reparação com vingança.

A verdadeira justiça não é carnal.

Ela é santa.

E por isso mesmo ela exige a morte de algo dentro de nós: o orgulho, a autopiedade, a sede de retribuição, a necessidade de vencer moralmente a história, o apego à dor como identidade.

Naquele monte, diante daquela escada, eu não encontrei apenas uma lembrança. Encontrei um espelho. Vi a mulher que eu fui. Vi a mulher que estou me tornando. E percebi que parte da minha cura passa por isso: deixar de exigir condenação e começar a interceder por restauração. Não porque o mal não importe. Não porque a dor não tenha sido real. Mas porque eu já não quero mais me parecer com a ferida que me feriu. Quero me parecer com Cristo.

Talvez amadurecer espiritualmente seja isto: parar de chamar vingança de justiça. Parar de santificar o ressentimento. Parar de usar a dor como autorização para permanecer no lugar da acusação. E escolher, ainda que chorando, ainda que tremendo, ainda que com a alma em processo, o lugar da justiça divina.

Aquela que não ignora o mal, mas também não se alimenta dele.

Aquela que não nega a ferida, mas não constrói identidade a partir dela.

Aquela que não protege o ego, mas liberta a alma.

E hoje, mais do que pedir que Deus faça justiça como eu imaginava, eu oro para que Ele me alinhe à justiça Dele, e que tenha misericórdia.

Porque a minha justiça teria condenado.

Mas a Dele pode salvar.

Obrigada Pai, por me ensinar…


 
 
 

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